O TEATRO BARROCO

Como em tudo o mais no período barroco, de limitações cronológicas tão volúveis quanto as volutas que nele se multiplicam, iremos encontrar no teatro, como no balé e na ópera que nascem por essa época, a fixação e o desenvolvimento da mais característica modificação da essência, do espírito e da forma das artes no Renascimento, ou seja, a transição da preocupação comunitária com a maior glória de Deus para o enlevo individualista e angustiado com a maior glória do homem. O teatro é o espelho da natureza; era inevitável que ele refletisse o abalo sofrido pelo mundo monoliticamente católico do feudalismo transnacional, ante a redescoberta da generosa riqueza do mundo pagão, no momento em que a corrupção interna corroía uma Igreja Católica tornada potência política e militar. Tal abalo foi expressado pela Reforma e pela ascensão das monarquias e das igrejas nacionais. No período barroco o teatro iria refletir não só a euforia humanística da libertação da rigidez religiosa e filosófica do mundo feudal, como também a complexidade maior do desamparo que acompanha a perda de um pano de fundo de certezas, da nostalgia desse mundo perdido, das profundas reflexões espirituais da Contra-Reforma, que procurou recuperar o bom nome da Igreja Católica mas não pôde fazer voltar o mundo de outrora.

Os conflitos existiam, tinham existido, e todo conflito é, essencialmente, um meio de cultura ideal para a forma dramática. Sendo o homem o meio de expressão, o próprio veículo da arte dramática e teatral, sendo o ser humano uma entidade inteiramente privada de linhas retas porém fartamente dotado de elementos conflitantes, tanto os puramente emocionais quanto - o que é mais fascinante - os que fermentam ininterruptamente entre razão e

 
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