| Anotações sobre a crítica Por razões nem sempre fáceis de se identificar, a palavra ‘critica’, no Brasil, parece ter uma conotação fortemente negativa, e aplicar-se exclusivamente à crítica jornalística, que por seu turno seria então exercida exclusivamente por indivíduos sem exceção desonestos e incompetentes, tomados do mais absurdo ódio por toda e qualquer atividade artística. Estes, parece, manteriam sempre, junto à maquina de escrever ou do computador, uma imensa lista de desafetos, aos quais perseguem implacavelmente, com o único objetivo de tirar, do fracasso deles, um demoníaco e indizível prazer. Por razões bem mais facilmente identificáveis, o retrato do crítico passa a ser do mais brilhante e íntegro Príncipe Encantado, quando ele elogia qualquer obra ou grupo ou indivíduo (muitas vezes, segundo os não aquinhoados no momento, só porque foi bajulado ou comprado). É ingrata, portanto, a atividade do jornalismo ligado a atividades culturais, pois todas essas atitudes passionais impedem a compreensão fundamental do que a crítica é indissociavelmente ligada à apreciação e, portanto, à própria criação, de todas as obras de todas as áreas de todas as artes. No entanto, a crítica, no sentido correto da palavra, é exercida por todos, inclusive por todo menininho ou menininha que, com profundo interesse, abre a barriga do ursinho ou arranCa os olhos da boneca para saber como eles funcionam. Ou o quê, senão a crítica, exercem todos aqueles que, na saída de um espetáculo, vão para um bar e discutem o que viram – e muitas vezes com preconceitos bem mais fortes do que os que são atribuídos a qualquer crítico, quando acontece o espetáculo ter sido realizado por qualquer grupo que não seja aquele ao qual pertencem |