MARTINS PENNA

Nada mais difícil do que falar sobre um assunto do qual se gosta muito; e para mim Martins Penna é um desses. E qualquer discussão que se faça em torno dele tem de começar pela constatação de sua fantástica brasilidade: a primeira peça de Martins Penna, O JUIZ DE PAZ NA ROÇA, escrita apenas onze anos depois do decantado grito do Ipiranga, é o mais cristalino atestado de independência que o Brasil poderia ter – e não falo aqui de independência ou morte mas, sim, de independência e vida, pois o que ratifica a existência de uma identidade nova e diversa da dos antigos colonizadores não são rótulos ou patriotadas, mas toda essa encantaroda série de comédias que deixam bem claro para todos que ser brasileiro já era uma coisa muito diferente de ser português. Todo mundo fala do infalível ouvido de reporter de Nelson Rodrigues, que de repente botou o Brasil moderno no palco simplesmente por criar personagens que falavam como nós falamos; pois de certo modo podemos ver em Martins Penna essa mesma qualidade, muito embora sua observação do mundo que transcreeveu para o palco entre 1833 e 1846, captasse um Brasil mais ingênuo, da vida como ela era ainda na idade da inocência.

E se a nossa conversa hoje deve versar sobre dramaturgia e estética, há muito o que dizer a respeito da igual semelhança entre os caminhos tomados por esses dois autores que muito aprenderam com a dramaturgia estrangeira mas forjaram sua própria estética brasileira. O caso de Martins Penna é o mais extraordinário dos dois: pode-se criar todas as lendas que se quiser a respeito de Nelson Rodrigues ser uma espécie de milagre, que sem nunca ter sabido nada sobre teatro repentinamente produziu O VESTIDO DE NOIVA. Mas sabemos que não é bem

 
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