MULHER INVISÍVEL

Barbara Heliodora
Jornal O Globo - 24/01/2007

“Mulher Invisível”, de Maria Carmem Barbosa, em cartaz no Teatro Candido Mendes, é prejudicada, é claro, por ser o enésimo monólogo dos últimos tempos a aparecer nos palcos do Rio. Prejudicada porque o texto é divertido, e inova os recursos inevitáveis na forma fazendo a monologante dialogar com os manequins da loja de vestuário masculino onde, como sempre sozinha, faz a faxina à noite.  A ilusão do diálogo, em Eunice, a faxineira, é a catarse da solidão diária, a extrapolação da emoção não compartilhada, o consolo da rejeição e do desrespeito por parte da prole em plena aborrecência.
 
Direção sabe aproveitar o talento da protagonista

Os manequins já são amigos, todos com mais defeitos do que qualidades, exatamente como o marido, porém dotados de duas qualidades fundamentais: ouvem sem interromper quando Eunice fala, e não xingam nem agridem. Com eles, é possível sonhar, deixar de ser invisível, ter ao menos a ilusão de viver.

Com altos e baixos (pois é impossível não cair de vez em quando no dejà vu desse gênero de monólogo), o texto tem momentos realmente divertidos, e a única objeção que pode ser feita é  o fato do vocabulário de Eunice ser bem mais amplo e sofisticado do que tudo o que ela conta a respeito de sua vida (e que transparece em seus momentos mais desbocados). Mas sem dúvida esse é  preço que a autora paga pelo que há de positivo em seu texto.

 
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