No dia desta entrevista, Barbara estava gripada e afônica. Numa gentileza enorme, recebeu-me para uma conversa que deveria ser curta. Após dez minutos, a paixão do objeto fortaleceu a voz e ela falou por mais de duas horas. Sua casa, num lugar belíssimo, dá fundos para o Largo do Boticário, no Cosme Velho, e está sobre um riacho que os índios tamoios - segundo a placa da informação turística - louvavam por favorecer a fertilidade das mulheres e a virilidade dos homens.

Estado - Na transcrição das conferências do seu livro, o tom informal da fala foi mantido. A idéia era essa?
Barbara Heliodora - A idéia é fazer uma obra introdutória. Como eu sou "fanzoca" de Shakespeare, eu não gosto quando as pessoas começam a. dizer. "É dificílimo; só eu consigo chegar até lá, você não." Não é verdade. Shakespeare é basicamente um autor popular, que escrevia para um público eclético. Um homem de teatro. Durante muito tempo se quis fazer dele uma figura inatingível e eu acho que é o contrário: todo mundo deve ler porque ele é ótimo. Mesmo em inglês, se a pessoa conhece bem a língua, pega uma boa edição e lê. Porque uma boa edição esclarece os pontos duvidosos.

Estado - Você diz que Shakespeare foi tornado um autor dificil. Quando começou esse juízo?
Barbara - Ele costuma ser visto como difícil aqui no Brasil. Mas nos séculos 17 e 18, na Europa, Shakespeare era considerado um incompetente: eles olhavam suas ,peças e achavam que ele era louco, porque ninguém podia montar aquilo no teatro. Predominava, na época, o palco italiano e a forma da dramaturgia neoclássica. Racine, que seria um parâmetro, usava entre 8 e 12 personagens.  Em  Shakespeare,  o  mínimo são 16.  Na  peça  Ricardo III

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