| Boticário, no bairro do Cosme Velho, a Barbara
de 80 diz que é "a mesma de 79". Leia-se: é
capaz de elogiar Reynaldo Gianecchini em seu esforço para ser
ator e desconstruir montagens patrocinadas por queridinhos da mídia,
como Jô Soares e Eduardo Moscovis. Muito diferente de ler Barbara
Heliodora - que em média assiste a três peças por
semana - é ver Barbara Heliodora. É preciso muita atenção
para se convencer de que aquela senhora afável é a mesma
que consagra e crucifica espetáculos, empala e entroniza artistas
e gêneros teatrais. Na segunda-feira lQ, entre telefonemas de
felicitações e carinhos em seu cachorro bassê Toco
- "a pessoa mais importante da casa" -, Barbara, a terrível,
conversou com ISTOÉ sobre a experiência fascinante, e angustiante,
de conhecer profundamente uma arte.
ISTOÉ - Como é fazer 80 anos?
Barbara Heliodora - É sobreviver. A coisa mais engraçada,
principalmente para uma pessoa como eu, com muita memória, é
lembrar o quanto as coisas eram diferentes, o que era o Rio de Janeiro
quando eu era menina. A cidade ficou mais caótica do que eu.
Perto da minha casa, na rua Clarice Índio do Brasil (Flamengo),
havia um estábulo e vendiam leite tirado das vacas. Verdureiras
e peixeiros vendiam seus produtos em casa e anotavam tudo em um caderno.
Na praia de Botafogo, na esquina da rua Marquês de Abrantes, tinha
um teatrinho de bonecos todo domingo de tarde. Uma pena essas coisas
terem desaparecido. As crianças eram crianças por mais
tempo. Não sou saudosista, mas qualquer um, de qualquer idade,
sente que o mundo vive uma crise de passagem. É um pouco angustiante,
fico preocupada com o mundo que meus netos e bisnetos herdarão.
Minhas filhas dizem que sou uma lista telefônica ambulante, lembro
de coisas que aconteceram há 50 anos, em detalhes. Mas para o
teatro desenvolvi memória seletiva. Hoje em dia anulo automaticamente
as coisas muito ruins que vejo.
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