Acostumada a atirar pedras, a temida crítica de teatro do jornal carioca O Globo, Barbara Heliodora Carneiro de Mendonça, de 69 anos, vai virar vidraça em outubro. Com a reputação de melhor tradutora de William Shakespeare do país, ela se prepara para dirigir Julio César, a convite do ator Milton Gonçalves, garotopropaganda da campanha do presidencialismo, que encarnará Brutus no espetáculo. Enquanto â peça estiver em cartaz, o computador que municia a metralhadora giratória mais odiada entre os artistas ficará inativo. E ela ainda não sabe se depois da trégua volta a disparar. "Vamos ver", diz, lacônica. Sua carreira de crítica já sofreu várias interrupções. Começou em 1958 na Tribuna da lmpremia, jornal de Carlos Lacerda, jornalista e político adepto da franca fuzilaria, que ela também adotou com estilo mais elegante e menos viperino. Mais tarde foi para o Jornal do Brasil, mas não ficou muito tempo.
No início dos anos 60 largou tudo, mas não sua grande paixão. Trabalhou no Serviço Nacional de Teatro, deu aulas e dedicou-se a memoráveis traduções de Shakespeare. Só aos 65 anos reassumiu as funções de crítica. Não poupa quase ninguém. É verdade que protege com um cordão sanitário sua amiga pessoal Fernanda Montenegro, mas escreveu que a sua última peça, Gilda, em cartaz em São Paulo, é muito ruim. Seu jeitão enfezado lhe rendeu uma vaia na entrega do Prêmio Shell de Teatro, no Rio de Janeiro, um quase unânime urro de centenas de artistas. Mas não estava presente. Essa mulher forte tem um ponto fraco: o pulmão. Recuperava-se num hospital de sua 14ª pneumonia. Barbara não se enxerga como a megera que atores, atrizes' e diretores pintam. Faz elogios às vezes tão entusiaSmados quanto a ferocidade das críticas. "f;u torço pelo teatro", faz questão de dizer. Mas reconhece que a temporada, com poucas exceções, não é nada animadora. Na semana passada, falou a VEJA:

 
REVISTA VEJA, 12/05/93 pág. 1