| Se não estivermos enganados, Barbara Heliodora talvez seja o único crítico de qualquer área no Brasil que pode ser chamado de popular.
Somos um país indigente culturalmente. Não vamos ao teatro, não lemos teatro nas escolas, mal sabemos a diferença entre quem escreve e quem dirige. Quem é capaz de imaginar que um intelectual de área tão específica quando a crítica teatral tenha chegado ao estágio de ser conhecido e reconhecido pelo público? Pois no Rio existe isso.
O Rio de Janeiro tem esse luxo: um crítico de teatro que todo mundo conhece. E que todo mundo lê. E que se tornou sinônimo de bom ou mau teatro para muita gente. E que é de longe mais famoso que muitos atores de carreira longa. Diretores então, nem se fala.
Barbara Heliodora é assunto em salão de cabeleireiro, em sala de espera de dentista, em papo de elevador. Não há vizinho de prédio que não venha nos dar um tapinha nas costas quando sai uma crítica positiva dizendo: “ a Barbara gostou, hein!”. E há aquele clima de enterro toda vez que ela fala mal da gente. Nem é provável que ela se dê conta disso; mas o que Barbara diz repercute incrivelmente no gosto popular e nas escolhas do público. Não é coisa de classe teatral, asunto interno. É popular mesmo.
As pessoas a chamam de “a Barbara ”. Não usam nem o sobrenome. Ela é lida. Muito lida. O público vai atrás do que ela diz, e vai até para discordar dela depois. É como uma baliza para as produções: antes e depois da crítica da Barbara.
Por que isso? Porque ela vê – para o bem e para o mal – com o olho da platéia comum. Do alto de seu indiscutível conhecimento catedrático, de sua reconhecida erudição shakespeareana e de seu domínio teórico de tudo o que envolve o fazer teatro em termos genéricos, o que ela despeja na página do jornal é compreendido por nossas mães, tias, turma da praia ou grupo do chopinho da esquina.
Não cabe aqui concordar ou não com o que ela escreve, com a maneira como pensa o teatro, com suas idiossincrasias e seus gostos. Mas privilegiada é a cidade que pode dizer que tem um crítico de teatro que é íntimo para o público; respeitado, odiado, discutido, cultuado, e acima de tudo, popular.
É isso. Certamente ela nunca pensou nisso, mas não há a menor dúvida: Barbara é POP.
Claudio Botelho e Charles Moeller voltar |