Em 1994 o Grupo Galpão cumpria, no Teatro do Centro Cultural do Banco do Brasil, a primeira temporada de A rua da amargura no Rio de Janeiro. Como já ocorrera anteriormente com Romeu e Julieta, Barbara Heliodora assinou no O Globo um texto crítico que nos deixou cheios de orgulho. Dias depois, entusiasmada com o trabalho do grupo que a encantara pela segunda vez, convidou-nos a visitar sua casa no Cosme Velho. Lá chegando, encontramos a jornalista, embora vestida como para uma festa, preparando uma sopa em sua cozinha. Percebendo nosso ar de surpresa diante da cena, informou-nos bem humorada: “Muitas pessoas conseguem de mim uma boa crítica. Uma sopa quente é muito difícil”.
Nessa atmosfera de descontração e camaradagem inauguramos nossa relação pessoal com a temível crítica. Na reiteração dessa convivência, renovada a cada passagem do grupo pelo Rio de Janeiro, vamos desvendando o verdadeiro caráter desse cordeiro com pele de lobo. O terror da classe teatral carioca revela-se na intimidade uma mulher afável, elegante e dona de excepcional bom humor.
Conhece profundamente não só o teatro, com foco especial em Shakespeare, sua paixão, mas qualquer forma de arte, literatura e sobretudo, arguta e experiente, a vida e a alma do ser humano. É admirável o seu prazer por uma boa conversa, hábito que ela cultiva, seduzindo e enredando seus ouvintes com deliciosas histórias, comentários sagazes, minuciosos relatos pessoais, observações penetrantes e a onipresente mordacidade crítica. Sua pequena sala, com vista para o Largo do Boticário, adornada com móveis antigos, uma profusão de fotografias familiares e muitos, muitos objetos de porcelana azul, é o ambiente perfeito onde deixar correr a noite, somando ao prazer das taças de vinho o deleite de uma conversa inteligente e bem humorada.
Mas essa conversa pode também ocorrer em cenários menos apropriados. Por ocasião da primeira temporada londrina do nosso Romeu e Julieta, em 1996, quisemos conhecer Stratford – upon – Avon, a terra de William Shakespeare. Para isso fretamos um ônibus e, aproveitando a presença de Barbara Heliodora em Londres, pedimos-lhe que nos acompanhasse na viagem, ela tão íntima do personagem e de seu cenário. Sua presença enriqueceu e iluminou nossa visita aos domínios do bardo, a começar pela exposição que nos ofereceu da biografia de Shakespeare, das circunstâncias em que viveu, da sua relação com a história da Inglaterra e da própria história da Inglaterra, descrita com inacreditável abundância de nomes e datas, escandidas com absoluta segurança. Tudo isso durante o percurso entre Londres e Stratford, em pleno ônibus e com o uso de um daqueles microfones utilizados pelos guias de turismo, incorporando ela própria, ao mesmo tempo, uma guia e uma mestra.
À parte suas expressões de afeto, Barbara Heliodora sabe manter o rigor que separa a amizade da responsabilidade crítica. Presente a todas as estréias, jamais se aproxima dos bastidores para afagos pessoais ou meros cumprimentos à equipe, retirando-se ao final, discreta e anônima, juntamente com o público. E só retoma o contato depois de publicada e digerida sua matéria sobre o espetáculo.
Impaciente diante da mediocridade, do equívoco, da facilidade, da mistificação, da simples picaretagem ou de qualquer particularidade que conduza um espetáculo a mau resultado, Barbara preserva, antes de tudo, sua liberdade  crítica  e  sua  coragem   de   manifestá-la.  Ainda  que  no  calor  do  convívio,  ainda  que  recebendo amistosamente em sua própria sala, não abre mão da sinceridade e da agudeza de seu florete. Relembrando um antigo espetáculo do Galpão que ela estraçalhara em 1990, não se acanha em dirigir-se ao grupo para afirmar, entre gargalhadas: “Aquilo era uma bosta”.
É sobre esse amálgama de calor e objetividade, de cuidado e aspereza, que Barbara Heliodora assenta sua independência e edifica sua já longa carreira de crítica. Há os que a temem, os que discordam dela, os que a odeiam e até os que, para enfrentar suas opiniões, escolhem a agressão. Mas certamente não haverá quem não se sinta recompensado, eleito, acariciado, ao ler, num quarto de página de jornal, suas palavras de reconhecimento, de incentivo, de louvor. Mesmo que nunca venham acompanhadas de uma sopa quente.

Texto de Arildo de Barros - Grupo Galpão

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