Barbara Heliodora tem pensado em Shakespeare por boa parte de sua vida. E se posso acusá-la de alguma coisa, é de ter me iniciado, e espero que a muitos outros, nesse vício absolutamente vital.
O que mais admiro em Barbara é a simplicidade com que fala de Shakespeare, de seu teatro de memoráveis personagens e frases eternas. Fala do complexo e do profundo sem limpar a garganta, sem mudar o tom de voz, como quem fala das coisas miúdas do dia-a-dia e que, afinal, são também fundamentais; fala com a despretensão de não ser quem, de fato, é, e de não saber o que, de fato, sabe.
E essa simplicidade vem acompanhada de um raro faro para o que é essencial. Em uma época em que as peças de Shakespeare têm sido apropriadas por diferentes correntes teóricas que, no afã de buscar a interpretação de maior impacto editorial, sustentam, entre outras distorções, que a reputação de Shakespeare é idolatria vazia, fraude forjada pela política nacionalista e imperialista da Inglaterra no século XVIII, é um privilégio termos, no Brasil, uma scholar lúcida e de sólida formação.
Barbara conhece em profundidade e extensão o teatro ocidental - e se alguém precisasse de provas, eu as teria aqui, em minhas mãos neste momento quando leio com prazer cópias manuscritas, datilografadas e digitadas de aulas que ela, ao longo dos anos, vem ministrando e que com certeza compõem uma riquíssima História do Teatro Ocidental. Barbara conhece o teatro clássico, o drama medieval, a commedia del'arte, o teatro de Moliére e de Racine, o século de Ouro Espanhol, e é claro, o teatro inglês renascentista, tendo traduzido quase todo o Shakespeare, mas também Marlowe e elizabetanos contemporâneos.
O âmbito dos estudos shakespearianos é campo particular porque requer que se frequënte com intimidade contextos históricos e culturais diversos - não só a época elizabetana-jaimesca, mas seus antecedentes, principalmente o período medieval, além da cultura clássica, sobretudo Ovídio e Sêneca. Requer ainda conhecimento da poética, da estrutura e dos recursos dramáticos usados por Shakespeare e de seus contemporâneos, pois Shakespeare é, essencialmente, um homem de teatro - ator, diretor, dramaturgo, e cotista da companhia. Muitos são, portanto, os campos a serem dominados, e raro o mestre que pode, com segurança, percorrê-los todos. É essa amplitude de horizontes e essa profundidade de conhecimento que permite com que nas aulas, nos livros, nas palestras e nas conversas mais corriqueiras, Barbara possa falar com propriedade de ... - sejamos humildes, como ela o é - ... de Shakespeare e de seu teatro. Díficil encontrar melhor e mais completo professor.
Como aluna, sinto-me absolutamente segura quando ela me toma pela mão e me guia, mesmo pelas linhas mais opacas das peças mais complicadas; quando me explica a mudança estilística que Shakespare inaugura, quando espantando o fantasma de Marlowe e abandonando um registro poético mais alto, inaugura um estilo mais simples, de imagens oriundas não mais de mitos clássicos mas do mundo doméstico, do cotidiano das pessoas comuns; estilo que mistura verso e prosa, e permite que príncipes e homens do povo conversem e habitem uma mesma tragédia - como quando o velho e autoritário Lear precisa fazer-se de novo homem e nesta trajetória, ouve verdades amargas que canta o seu bobo e redescobre a essência humana na nudez e pobreza dos esquecidos de seu reino. Tenho nessas aulas a certeza que se eu tiver uma memória boa o suficiente o que hoje Barbara me ensina, posso aprender agora e revisitar amanhã, com mais maturidade de leitura e mais estrada; pois as aulas de Barbara têm o sabor dos clássicos que nunca envelhecem.
Foi para compartilhar com todos aqueles que ainda não tiveram o privilégio de ter aula com Barbara que Célia Arns de Miranda (UFPR) e eu organizamos Reflexões Shakespearianas (Lacerda, 2004), volume que reúne algumas palestras que promovemos na Universidade Federal do Paraná e na Associação Cultural Solar do Rosário, neste último local em conjunto com a Anna Stegh Camati (UFPR/ UNIDRANDE) e à convite de Regina Casillo.
Tenho absoluta certeza que o Shakespeare que ao leitor se oferece em Reflexões Shakespearianas, bem como em Falando de Shakespeare (Perspectiva, 1977) e ainda com maior razão isto se aplica a Expressão dramática do homem político em Shakespeare (sua tese de doutoramento que em breve sairá em nova edição revisada) é muito mais que o acúmulo de notas de rodapé e de citações de interpretações de terceiros. É um Shakespeare que vem de nossa maior tradutora, um Shakespeare não apenas para acadêmicos, mas para diretores, atores, autores, e todos aqueles interessados nos comportamentos e paixões humanas, um Shakespeare em primeiríssima mão, que abarcando toda a trajetória do autor - comédias, peças históricas e tragédias - , diz o essencial.
Liana de Camargo Leão - Professora da graduação e da pós-graduação em Letras na Universidade Federal do Paraná, doutora em Teoria Literária pela USP e autora de livros infantis, entre os quais O Livro das Casas (Cortez, 204) e Julieta de Bicicleta. (Cortez , 2004)

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