Como conheci e reconheci Barbara Heliodora.
Eu vinha do Sul e me aproximara do Teatro do Estudante, atraída pela personalidade de Paschoal Carlos Magno. Diplomata, poeta, escritor, jornalista, apaixonado por teatro.
O Rio preparava-se para assistir ao renascimento da tragédia mais famosa do teatro moderno: Hamlet - há tempos incontáveis, por estas bandas, só conhecida através de textos eruditos e raros - ia ser levada ao palco carioca por elenco de jovens inteligentes, estudiosos e talentosos, sob a direção de diretor de formação européia.
Neste momento culminante ouvi pela primeira vez o nome de Barbara Heliodora . Bem nova a nossa Heliodora já era shakespeariana. Paschoal foi buscá-la, ela aderiu ao alvoroço cultural e foi então que estreou na arte de atrair platéias. Agora a temos entre nós, há anos crítica de O Globo, famosíssima discutidíssima mas no meu persistente entender, desconhecidíssima. Somente percebida por um grupo menor que a compreende, a reconhece e a cobiça. É quando a capturam no fluir do conhecimento a que se tem dedicado com incansável paixão, quando, tornando harmoniosos o discernimento crítico e a imaginação criadora, dirige- se direta e verbalmente ao público. Num fenômeno transfigurador, do qual talvez nem ela tenha consciência plena, entrega-se ao amoroso diálogo do artista com a platéia, e esta, seduzida, enfim descobre a verdadeira vocação daquela que julgava mestra autoritária : a do poeta cuja ação apaixonada transforma em ato miraculoso a si mesmo e aos outros.
A celebridade da crítica teatral Barbara Heliodora é produto da rotina jornalística, que ela aliás exerce em todos os sentidos com bravura, mas a sua hora feliz e a de todos nós que a escutamos é a hora em que desata a seu conhecimento crítico em torrente poética diante do público. Hipnotiza a platéia, deleita-a, torna-a cúmplice. Nestas ocasiões há sempre alguém que pela primeira vez ouve a fala melodiosa e confessa-se “surpreso”, “conquistado” “maravilhado”.
“ É que a Barbara - explico eu aos convertidos, alguns quase em crise de culpa, quando passam, súbito, da aversão à paixão pela personalidade antes só conhecida de ouvir dizer - “a Barbara tem formação de teatro, traz nas entranhas a semente dramatúrgica , diante do público a semente floresce, como sucedia à poeta Juana de Ibarbouru de cujas mãos brotavam rosas aos beijos de amor”.
O caudal poético esteve contido, é verdade, na televisão, onde as regras culturais são outras que não as da troca mútua ator-espectador. A entrevista deveria ser prosaica mas Marília Gabriela soube puxar o fio inspirador com o qual derrubou nos braços da entrevistada grande número de pessoas que a identificavam demolidora de carreiras teatrais e passaram daí em diante a considerá-la mater et magistra.
Todos nós somos mutáveis, polivalentes, heterogêneos, caricaturais, surpreendentes, criamos sociedades protetoras dos animais e daí a pouco estamos matando os uns aos outros pelas cláusulas do contrato, assim como também nos anunciamos neutros e em seguida nos imolamos a uma causa. São argumentos para fortalecer a idéia de que a nossa vulgar condição humana pode tornar-se invulgar numa personalidade muito em evidência. A Barbara, por exemplo, em serviço, intransigente e durona, quando em público, lírica e inspirada.
Que não se atribuam minhas considerações sobre a arte de falar da arte de Barbara ao fato da nossa amizade já contar cinqüenta anos. Somos do gênero “amigos, amigos, negócios à parte”. Na interpretação dos fatos temos sido várias vezes antagônicas. A minha memória retém pelo menos um momento em que nos enfrentamos a gritos destruidores da razoabilidade ( que saúde tínhamos!). Seria bom que o britânico Cayton , , na época, adido cultural, no Rio, pudesse testemunhar como, de outra sala, acorreu, alarmado e cavalheiresco, a apartar a discussão das antagonistas e como ambas, simultâneas, o tivessem acalmado com a simplicidade da lógica: “Não, não é briga. Estamos discutindo a pena de morte” , o desentendimento encerrado nos limites da nossa particular visão de mundo.
Oxalá neste enfoque em que eu a ponho desde há algum tempo, Barbara não discorde de mim. Já por duas vezes, diante de câmeras de televisão e painéis de luzes, confrontei-a com perguntas sobre a sua dupla face de crítica zangada e de palestrante enamorada. Isto se deu na TVE : A verdade . . .(etc) do Pamplona. Num intervalo de anos entre os dois programas fui consultar meus arquivos e descobri que eu em palavras modificadas lhe fizera sempre a mesma pergunta e ela do mesmo modo variável me dera a mesma resposta.
Maria Inez Barros de Almeida
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