Convide a Barbara! Não adianta, ouvi dizer que ela não quer. Convide, o máximo que vai receber é um não. Mas, se prepare! Se ela aceitar, metade da classe teatral vai querer te matar. A Barbara é implacável. Quando não gosta, sai da frente. Não perdoa nem os amigos, principalmente os amigos. Mas o Teatro vai te agradecer para o resto da vida, porque o Teatro precisa dela.
Foi Ademar Guerra, diretor de teatro dos melhores da geração surgida no início dos anos de 1960, que insistiu para eu convidar a Barbara. Na época, 1985, eu era editor de Cultura da revista Visão e procurava um crítico de teatro para cobrir a temporada no Rio de Janeiro. Ademar armou nosso primeiro encontro, eu lembro bem, na sede do Ballet Stagium, na rua Augusta, em São Paulo. Marika Gidali havia convidado a Barbara para uma palestra com os bailarinos da companhia. E eu fui de penetra. No final me aproximei e joguei o convite, assim como quem não quer nada. Não! Resposta seca, definitiva. Mas, por que? Porque não. Quero sossego. Ao lado, Ademar e Marika me acudiam na minha insistência. Barbara não cedia. Vou ganhar pouco e pra ser odiada? Nem pensar. E, depois, dá muito trabalho. Vou ter que ver tudo e escrever, muitas vezes, sobre coisa que eu não gosto. Está bem. Você só escreve sobre o que você gostar. E só assiste aos espetáculos que você quiser, eu não vou impor nenhuma pauta. Palavras mágicas. Barbara fez uma pausa um pouco maior, o suficiente para eu encerrar o assunto. E então, quando você me manda a primeira crítica? Também não é assim – ela tentou recuar. Preciso de um tempo pra pensar. E logo ela estava escrevendo não uma crítica semanal, às vezes mais de uma. Mas, Barbara, a Visão é revista semanal, não tenho como publicar mais de uma. Problema seu. O meu é escrever, o seu é editar e arrumar espaço. Para quem dizia que não queria mais fazer crítica, ela me saiu melhor que a encomenda...
Foi assim que consegui trazer Barbara de volta à critica teatral. Graças ao Ademar Guerra e à Marika Gidali. Você é o culpado! Cansei de ouvir isso de amigos que receberam críticas menos favoráveis da Barbara. Até hoje ainda ouço. Enquanto fui editor da Visão ela resistiu aos convites que recebeu de outros jornais e revistas, até para ganhar mais. A lealdade é um traço forte do seu caráter. Quando deixei a imprensa e voltei a fazer só teatro, continuamos amigos, mas já não nos falamos com a constância que eu gostaria. E eu sinto falta da Barbara no meu cotidiano. Sinto falta da sua inteligência. Sinto falta do seu humor, da sua risada. Sinto falta de discordar da Barbara sobre futebol, mais do que sobre teatro. Sim, como a maioria da nação brasileira ela é técnica de futebol, discute as táticas e as escalações dos times, critica jogadores e treinadores, reclama, esbraveja. Às vezes diz que não se interessa mais por futebol, mas é conversa. É só provocá-la. Sinto falta das suas receitas – ela me ensinou uma de frango com mel que é um primor. Por tudo isso eu me sinto feliz de ser seu amigo. E mais, de ter trazido Bárbara de volta à critica teatral. Conheço poucas pessoas com o seu amor apaixonado pelo Teatro. Sim, porque é de desamor que, freqüentemente, padece o Teatro. Não desamor do público, mas de quem o faz e de quem tem a tarefa de ajudar a pensá-lo. E Barbara nos ensina, acima de tudo, a amar o Teatro em toda a sua beleza e até nas suas fraquezas.

Oswaldo Mendes

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